Entrevista/Elvino Bohn Gass
"Yeda afundou o Rio Grande num mar de lama"
Representante do PT na CPI do Detran, o deputado Elvino Bohn Gass tem marcado sua atuação com uma postura objetiva e contundente durante as inquirições das testemunhas do maior escândalo de corrupção da história política do Estado. "O povo gaúcho tem o direito de saber onde foram parar os quase 50 milhões de reais que, com a Fraude do Detran, viraram propina para partidos, campanhas eleitorais e encheram os bolsos de um bando de figurões que, na política, sustentam o governo Yeda. Meu esforço é para ajudar a descobrir o destino do dinheiro roubado, tentar recuperar o que for possível e garantir a punição dos quadrilheiros." Bohn Gass é assim mesmo : direto, franco, simples. Nesta entrevista ele faz uma síntese da CPI do Detran que está chegando ao seu final.
O senhor acredita que a CPI do Detran terá algum resultado positivo?
Bohn Gass – Não se trata de acreditar ou não, os resultados já estão aí para quem quiser ver. Yeda, que chegou a cogitar o fim do piso regional, voltou atrás e ofereceu um aumento que satisfez as centrais sindicais. O que isto significa? Ora, que o governo não tinha condições políticas de enfrentar mais uma briga pública já que a imagem da administração estava em frangalhos por causa do escândalo no Detran.
Certo, mas isto não tem a ver com a CPI diretamente...
BG – É verdade. Digamos que este é um efeito colateral positivo da CPI.
Então os resultados são apenas colaterais?
BG – Não. A CPI tem ainda a virtude de dar transparência a um roubo que foi praticado por uma quadrilha que estava dentro do governo, que incluía figurões da política gaúcha e que, até o estouro da Operação Rodin, eram tidos como "homens de bem".
A quem, especificamente, o senhor se refere?
BG – A homens, por exemplo, como Flávio Vaz Netto, que esteve no primeiro escalão de vários governos; a Antônio Dorneu Maciel, ex-diretor-geral e todo poderoso da Assembléia Legislativa que foi nomeado por Yeda para cuidar do dinheiro da CEEE; a Carlos Ubiratan dos Santos, cargo de confiança do governo Rigotto para a presidência do Detran; a Paulo Jorge Sarkis, ex-reitor da Universidade de Santa Maria e que, até então, desfrutava de grande prestígio intelectual e político.
E os secretários de Yeda, Ariosto Culau e Delson Martini?
BG – O Culau foi tomar chope com o Lair Ferst, que é um dos núcleos da fraude, justamente no dia em que o governo rompeu o contrato com a Fundae, uma das fundações utilizadas para escoar a propina do Detran. Caiu porque levou o escândalo para dentro do Piratini. Quanto ao Martini, bem, ele é citado várias vezes nas escutas telefônicas da Polícia Federal como o homem que dava orientações de procedimento aos quadrilheiros. Pessoalmente, estou convencido de que Martini sabia e atuou na fraude. O que não posso afirmar é que tenha se beneficiado diretamente, mas que na CPI ele deu um depoimento inverossímil, ah! isso ficou evidente. É nítido que ele se protegeu e está protegendo alguém.
Quem?
BG – Ela, aquela que se julga e age como se fosse rainha.
Mas quem é a rainha?
BG – Ora...
O senhor mencionou Lair Ferst. Ele é apontado pela imprensa como um dos coordenadores da campanha da governadora Yeda, inclusive na função de arrecadador de fundos. Ele desfrutaria de grande poder dentro do PSDB, partido da governadora e, inclusive, teria sido excluído do "esquema Detran" justamente pela proximidade com Yeda. É isso mesmo?
BG – É por aí. Lair é um tucano de alta plumagem, sim. Na CPI, ficou evidente que ele é o verdadeiro dono de pelo menos duas empresas que foram contratadas pelo esquema apenas para escoar a propina, a New Mark e a Rio del Sur, que estão em nome de familiares seus. Estes familiares estiveram na CPI e nem os governistas acreditaram neles. São laranjas de Lair.
E a tal carta que a Polícia Federal teria apreendido no escritório de Lair, do que ela trata?
BG – Na carta, Lair conta quase tudo, menos a participação dele próprio naquilo que o Ministério Público Federal chamou de superestrutura criminosa. A carta é, na verdade, uma queixa que Lair faz à governadora sobre sua exclusão do esquema. É mais uma prova de que a relação com Lair é muito mais próxima do que Yeda quer admitir, que a governadora sabia de tudo, e que, há, sim, justamente por isso, no mínimo, um crime de improbidade administrativa e que a governadora prevaricou.
O senhor está dizendo que a CPI pode acusar a governadora por um crime de responsabilidade?
BG – Infelizmente, sim. Digo infelizmente porque não sou da turma do quanto pior, melhor. Esta constatação não me deixa nem um pouco feliz. Mas não há como fugir da responsabilização da governadora. Além da carta, que foi entregue ao Marcelo Cavalcante, ex-chefe de gabinete de Yeda ao tempo em que ela era deputada e que, por isso mesmo, não esconderia uma informação bombástica da governadora, ela soube da fraude por, pelo menos, três pessoas que ocupavam cargos de confiança em seu governo: o ex-presidente do Detran, Flávio Vaz Netto; o ex-secretário de Segurança Ênio Bacci e o próprio Delson Martini, que aparece nas interceptações telefônicas como o homem que falava por ela com os quadrilheiros. Ela soube e não tomou qualquer providência. Incorreu sim, em crime de improbidade.
Para encerrar. A casa da governadora acabou entrando na CPI do Detran. O que uma coisa tem a ver com a outra?
BG – Tomara que nada. Ninguém nunca acusou a governadora de ter se beneficiado com o esquema Detran. O problema é que, no mesmo período em que a fraude estava em pleno funcionamento e, ainda por cima, logo depois da eleição, Yeda comprou uma mansão que vale mais de um milhão de reais.
Mas comprar casa não é crime...
BG – Não é mesmo. Mas um depoimento dado à CPI sugeriu que a mansão da governadora fora comprado com um cheque do Lair Ferst.
Isto foi comprovado?
BG – Não, mas como o tema veio à tona, acabamos indo atrás da tal casa e descobrimos que, muito provavelmente, Yeda não tinha dinheiro para comprá-la.
Como assim?
BG – A própria governadora foi à imprensa e disse que havia reunido todas as suas economias e vendido dois apartamentos e um carro para poder comprar a casa por 750 mil. Todas as avaliações feitas dão conta de que a casa vale mais de um milhão.
Mas onde está o problema?
BG – Mesmo reunindo todas as suas economias e mesmo acreditando que a casa tenha custado 750 mil, ainda assim ela não consegue dizer de onde tirou o dinheiro.
A governadora ameaçou processar o presidente da CPI, deputado Fabiano Pereira, por ele ter falado na casa...
BG – Ela deve processar a todos nós, deputados do PT, então, porque nenhum de nós acredita na versão dela. Os valores não fecham.
Este pode ter sido um dos destinos do dinheiro roubado no Detran?
BG – É o que ainda precisamos saber. O secretário, aliás, ex-secretário Busatto, foi conversar com o vice-governador Paulo Feijó e deu algumas pistas importantes. Disse mais: disse que Daer, CEEE, Banrisul e Detran eram usados para sustentar partidos, mencionou campanhas eleitorais. O Feijó gravou esta conversa e deu publicidade a isso. Na mesma conversa, o Busatto ainda disse a Feijó que o Fernando Lemos, presidente do Banrisul, poderia fazer um gesto concreto. Ora, que conversa é essa de gesto concreto? O próprio Feijó interpretou como uma tentativa de cooptação, uma tentativa de comprá-lo. E ainda disse que Busastto fez isso outras vezes.
O que o Banrisul tem a ver com o Detran?
BG – É que já existiam várias suspeitas sobre desvios de dinheiro no Banrisul que teriam sido cometidos com o mesmo modus operandi da quadrilha que roubou o Detran, através do superfaturamento de serviços terceirizados a fundações. E o Busatto, na conversa com Feijó, disse que o Banrisul era do PMDB e o Detran do PP. A coisa é tão grave que agora o deputado Eliseu Padilha e o senador Pedro Simon, dois caciques do PMDB, dizem que vão processar Busatto e Feijó. E o presidente do PP, Jerônimo Gorgen, exigiu que Yeda demitisse o Busatto. Veja bem, aí está toda a base política da governadora. Virou uma geléia.
Como o senhor avalia o fato de a imprensa de todo o país, o Jornal Nacional inclusive, ter apresentado gravações de pessoas que ocupavam cargos de confiança do governo gaúcho combinando propinas? Isto é bom ou ruim para o Rio Grande do Sul?
BG – A verdade, as vezes, dói. É positivo que a roubalheira tenha vindo à tona, mas é muito triste constatar que a notícia que estamos gerando para o Brasil é de um Estado atolado num mar de lama, de corrupção. Este é o legado do governo tucano para o Rio Grande.
E as carteiras de motoristas? O preço vai baixar?
BG – Se a governadora Yeda quisesse, já poderia ter feito isso há muito tempo. A CPI comprovou que o preço não precisaria ser tão alto. Só é assim porque a quadrilha incluía o custo da propina no preço da carteira.
